Os correios americanos <br> (também) são do povo

António Santos

O apetite do grande capital pela apropriação de toda a actividade humana tem um longo cadastro de consequências trágicas. Quando a obtenção do lucro por uma minoria substitui o desígnio natural da vida, as sociedades e os povos decaem, porque a decadência da sociedade é ela mesma lucrativa. Em estádios diferentes de desenvolvimento capitalista, a indústria vive convulsões autofágicas, as mercadorias são destruídas, bairros inteiros ficam vazios, a água encarece e guerras arrasam cidades inteiras. Porém, há momentos na história da guerra entre as classes em que o capitalismo se move com surpreendente unidade táctica, atacando a humanidade inteira pelo mesmo flanco. A privatização do serviço de correio público é um desses flancos e os nossos dias são um desses momentos. No Canadá ou na Alemanha como na Grécia e em Espanha ou no Japão, no Reino Unido ou em Portugal, os senhores do dinheiro têm em curso planos de privatização ou já o conseguiram. Também nos EUA, como em todos os países, o plano de entregar este serviço essencial a privados enfrenta-se à vontade de trabalhadores e populações.

No passado dia 28 de Janeiro, num protesto em São Francisco, os trabalhadores da companhia nacional de correios (USPS) inauguraram um calendário de lutas e protestos a nível federal que se estenderá durante os próximos três meses. Sob o lema «os correios dos EUA não estão à venda», largas centenas de trabalhadores tomaram as ruas da cidade da baía para denunciar a entrada em vigor da associação entre os USPS e a cadeia de lojas Stapples. O sindicato dos trabalhadores dos correios, o APWU, acusa a administração dos USPS de, sob a capa de ampliar os serviços, cobiçar a privatização definitiva da empresa. O projecto piloto em cheque, que já abriu mais de oitenta balcões da USPS dentro das lojas da Stapples, proíbe a contratação de trabalhadores da companhia pública de correios, substituindo-os por trabalhadores não qualificados e remunerados com o salário mínimo.

Ampliar é eufemismo para destruir 

Ao contrário do que os USPS prometeram, a aliança dos correios com a Stapples nos estados da Califórnia, Geórgia, Massachusetts e Pensilvânia não veio beneficiar as populações com mais balcões e horários mais alargados. Traduziu-se apenas na degradação da qualidade dos serviços bem como na competição directa entre estações os USPS e balcões da Stapples. Os trabalhadores temem que no quadro de sucessivos cortes orçamentais essa competição resulte no encerramento das estações de correios mais caras ao Estado, onde trabalham os funcionários públicos qualificados e com direitos. Um receito razoável, tendo em conta que só nos últimos três anos mais de 140 000 trabalhadores da USPS perderam o emprego.

No entanto, para a grande burguesia estado-unidense, os trabalhadores da USPS não são só «pouco competitivos», são também um problema político. Os USPS estão entre os últimos grandes bastiões do sindicalismo americano e os seus trabalhadores gozam de amplos direitos que não se encontram facilmente nos EUA. Apesar de cortes recentes nos benefícios laborais, os USPS remuneram dignamente os trabalhadores, garantem direitos e liberdades na maioria das empresas inexistentes e ainda são conhecidos como uma empresa em que é possível fazer uma carreira estável e conseguir uma reforma. Numa nação mergulhada no racismo e na discriminação, os USPS surgem também como um bom exemplo. Segundo dados do Pew Research Center, os USPS são a empresa onde é mais provável que os afro-americanos consigam um bom salário e aquela onde é menos gravosa a diferença de rendimentos entre brancos e negros.

Como em Inglaterra, Espanha, Grécia, Canadá, Japão, Alemanha e Portugal, entre tantos outros, os trabalhadores dos correios dos EUA não se deixam enganar pelos cantos de sereia da privatização. De costa a costa, um grito ecoará na América durante os próximos meses: «Os correios não estão à venda!». Quando em Portugal dizemos que «Os correios são do povo» fazemos uma tradução perfeita das aspirações e anseios do povo norte-americano. Saibamos nós que não lutamos sós e que seja sua a nossa solidariedade.



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